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O boiler que desliga sozinho
Uma tomada Wi-Fi de R$ 59 assume o horário do aquecimento, e a placa do aparelho decide se a conta é sua ou do eletricista.
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Tomada Wi-Fi no boiler, LED aceso no escuro
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Atrás de quase toda tomada inteligente vendida no Brasil existe um número gravado em relevo, letra minúscula, no plástico da carcaça: 10 A. Ele é o teto de corrente que aquele corpinho de plástico aguenta sem esquentar. Multiplicado pelos 127 volts da maioria das tomadas de sala, dá 1.270 watts. Numa rede de 220 volts, o mesmo 10 A vira 2.200 watts. Existem modelos de 16 A, e eles chegam a 3.520 watts em 220 volts.
Guarde esses três números, porque a diferença entre uma automação que funciona por anos e um cheiro de plástico queimado às seis da manhã mora inteira dentro deles.
Do outro lado do fio está o aparelho que você quer domar. Um boiler de apartamento, aquele cilindro de acumulação que fica no forro do banheiro ou dentro do armário da área, costuma trazer uma resistência de 1.500 a 3.000 watts, e passa boa parte da madrugada ligando sozinho pra manter a água quente que ninguém vai usar até as sete. Um aquecedor a gás de passagem, por outro lado, gasta energia elétrica quase só pra manter o painel e a ignição vivos, uma carga ridícula de poucos watts. E o chuveiro elétrico comum, aquele com botão de inverno, marca 5.500, 6.800, às vezes 7.500 watts na plaqueta prateada colada no corpo.
Os três aparecem na mesma conversa de grupo de condomínio como se fossem o mesmo problema, e resolvê-los com o mesmo acessório de R$ 59 é o jeito mais rápido de derreter um contato de tomada.
A automação certa aqui não tem nada de sofisticada. É o horário. Água quente parada perde calor pra parede o tempo todo, e a resistência religa pra repor esse calor mesmo às três da manhã, com o apartamento inteiro dormindo. Cortar a energia do aparelho na janela em que ninguém abre torneira, e devolver quarenta minutos antes do primeiro banho, é a única coisa que a tomada precisa fazer. O aplicativo do próprio fabricante já sabe fazer.
O que ele não sabe fazer é ler a plaqueta do seu aparelho por você.
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I Abaixo de Cem
O que a tomada aguenta de verdade
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Watts divididos por volts dão amperes, e é essa conta de uma linha que separa o aparelho que cabe na tomada do aparelho que pede quadro. Veja o que a plaqueta do seu aquecedor está dizendo.
A conta que decide tudo tem três variáveis e cabe numa linha: potência do aparelho, dividida pela tensão da tomada, dá a corrente. Um boiler de 2.000 watts numa rede de 220 volts puxa pouco mais de 9 amperes, e cabe folgado numa tomada inteligente de 10 A. O mesmo boiler numa rede de 127 volts puxa quase 16 amperes, e já não cabe.
A plaqueta de dados fica colada no corpo do aparelho, geralmente perto da entrada de água fria, e traz a potência em watts e a tensão de trabalho. Se ela estiver apagada pelo tempo, o manual do modelo tem o mesmo dado. Sem esse número na mão, nenhuma decisão é possível.
Por R$ 59 você compra um bloco de plástico com três peças dentro: um relé, que é o interruptor mecânico que abre e fecha o circuito, um módulo Wi-Fi de 2,4 GHz, e um medidor de consumo nos modelos um pouco melhores. O relé é a peça que envelhece: ele tem um número finito de manobras, e cada liga e desliga de uma carga pesada come um pedaço do contato interno.
Tomada de 10 A com plugue redondo pequeno e tomada de 20 A com plugue grosso são padrões diferentes de fábrica, e o plugue de 20 A nem entra no furo de 10 A. Quando alguém força a entrada com adaptador, o adaptador vira o ponto mais fraco da corrente inteira.
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A norma brasileira de instalações elétricas de baixa tensão exige circuito exclusivo para o chuveiro elétrico, com condutor e disjuntor dimensionados só para ele, sem tomada intermediária no caminho.
ABNT NBR 5410, Instalações elétricas de baixa tensão, 2004
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Ou seja: chuveiro elétrico não é candidato. Ele nem tem plugue, sai da parede direto no cabo, e a corrente que ele puxa é duas a três vezes o teto da tomada mais robusta da prateleira. Aquecedor a gás de passagem é o oposto, carga minúscula, e o horário nem faz diferença na conta, porque ele só consome quando alguém abre a torneira.
Sobra o boiler elétrico de acumulação, e ele é exatamente o alvo do acessório de R$ 59, desde que a conta feche com folga. A regra prática que os fabricantes de relé usam é não passar de oitenta por cento do valor nominal em carga contínua: numa tomada de 10 A, isso significa parar em 8 A reais.
Um detalhe some das descrições de anúncio e cobra caro depois. Muitos boilers de apartamento não têm plugue nenhum: saem fixos numa caixa de passagem, com fio direto. Ali a tomada inteligente não tem onde entrar, e a peça equivalente é um módulo de embutir instalado dentro do quadro, trabalho de eletricista.
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II A Rotina do Dia
A rotina que segura o horário
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O aplicativo do fabricante, seja Tuya, Smart Life ou o app de marca própria que veio na caixinha, faz tudo pelo mesmo caminho. Você adiciona o dispositivo com o celular na rede de 2,4 GHz, dá um nome que o resto da casa entenda, e abre a aba de agendamento.
Passo 1. Ligue o boiler direto na tomada da parede por um dia inteiro e anote o horário do último banho da noite e o do primeiro da manhã. Esses dois relógios são a matéria-prima da rotina, e chutá-los é a causa mais comum de acordar sem água quente.
Passo 2. Crie o desligamento. Trinta minutos depois do último banho da noite, a tomada corta. A água que já está quente dentro do cilindro continua quente por horas, porque o tanque é isolado; o que você cortou foi só a reposição.
Passo 3. Crie o religamento. Quarenta minutos antes do primeiro banho da manhã, a tomada devolve energia. Um cilindro isolado que passou a madrugada fechado costuma perder poucos graus, então esse tempo sobra pra recuperar a temperatura de conforto.
Passo 4. Deixe o botão físico do aplicativo acessível na tela inicial do celular. Visita inesperada, banho fora de hora, dia de lavar roupa em água quente: a rotina precisa de uma porta de saída manual, ou vira prisão.
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Um ponto que quase todo mundo erra na primeira semana. Quase toda tomada inteligente tem uma configuração chamada estado ao religar, ou power-on state, e ela decide o que acontece depois de uma queda de energia. Deixe em desligado, nunca em memorizar o último estado: se o prédio cair a luz às duas da manhã e voltar às duas e dez, você não quer que a resistência religue fora da janela combinada.
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O medidor de consumo, quando o modelo tem, transforma o palpite em número. Depois de três dias de rotina rodando, o aplicativo mostra os quilowatts-hora que aquele aparelho gastou por dia. Comparar essa marca com a de um dia sem rotina é o único jeito honesto de saber se a mudança valeu.
Vale conferir também a temperatura da própria tomada com a mão, uma vez, no fim de um ciclo longo de aquecimento. Morna é normal. Quente ao ponto de incomodar o dedo significa que a carga está apertada demais pro contato, e a instalação precisa parar ali mesmo.
Se a casa tem assistente de voz na estante, o mesmo dispositivo aparece no aplicativo dele depois de vincular as contas, e um comando falado passa a ligar o aquecimento fora da rotina. É um confortozinho, jamais o motivo da compra: a rotina agendada é quem faz o trabalho enquanto ninguém está olhando.
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