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Sete e vinte da noite, o saco de lixo desce, a porta de serviço fica encostada no batente porque as duas mãos estavam ocupadas, e a casa segue a noite inteira acreditando que está fechada. O jantar acontece, a louça acontece, a série acontece. Às onze e meia alguém vai apagar a luz da cozinha, encosta o quadril na porta e sente ela ceder pro lado de fora.
Ninguém errou nada grave. A porta de serviço é a única da casa que trabalha com a mão ocupada: lixo, compras, roupa da máquina, o cachorro que quer sair. Ela é empurrada com o cotovelo e volta sozinha até o batente, faz o barulho de fechada e não tranca. A porta da frente tem chave, olho mágico e o ritual de sair de casa. A dos fundos tem pressa.
A casa não tem como avisar. O apartamento não emite som, o alarme do prédio não enxerga a porta interna do seu andar, e o morador só descobre quando passa perto de novo, três, quatro horas depois. Um aviso nesse intervalo não exige câmera, contrato mensal nem central de monitoramento.
Existe um par de peças de plástico, do tamanho de dois chicletes, que resolve a distância entre a porta encostada e você sabendo. Uma metade cola no batente, a outra na folha da porta, e as duas conversam por ímã. Quando elas se afastam, o aparelho registra abertura. Quando ficam afastadas tempo demais, o celular apita.
O ponto da montagem de hoje não é assalto, e sim o aviso que ninguém dá dentro de casa: a porta que passou dois minutos aberta, a janela do quarto do fundo em noite de chuva, o freezer da varanda que ficou entreaberto depois da feira. Um sensor de trinta e nove reais cobre os três casos com a mesma lógica.
Começando pelo par de peças, pelo que ele custa hoje e pelo detalhe do padrão de rede que decide se a instalação fecha em dez minutos ou trava no cadastro.
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I Abaixo de Cem
Trinta e nove reais em dois pedaços de plástico
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O sensor magnético de porta é o aparelho mais barato de casa conectada que existe na prateleira brasileira, e custa perto de trinta e nove reais no modelo mais vendido. São duas peças brancas retangulares, a maior com quatro centímetros, a menor com dois. A maior guarda a eletrônica e a bateria; a menor guarda um ímã e mais nada.
Dentro da peça grande existe um contato que fecha na presença do ímã e abre quando ele se afasta. O aparelho não sabe o que é porta, janela ou freezer. Ele sabe se as duas peças estão vizinhas ou separadas, e informa a mudança pro aplicativo no mesmo segundo.
Nas varejistas grandes o preço das marcas populares fica entre trinta e nove e cinquenta e nove reais na versão wi-fi. Existem versões acima de cem reais das marcas de alarme profissional, que entregam caixa mais robusta e bateria maior, e não entregam aviso melhor pro que você vai montar hoje.
WI-FI OU ZIGBEE
O sensor wi-fi fala direto com o roteador e não precisa de mais nada em casa. É o caminho de quem tem um ou dois sensores. A conta que aparece depois é a bateria: o rádio wi-fi consome mais, e uma porta movimentada derruba a pilha em três, quatro meses.
O sensor zigbee gasta uma fração da energia e a mesma pilha atravessa o ano inteiro, com a condição de existir um hub zigbee em casa. Hub custa entre cento e cinquenta e trezentos reais, o que só compensa a partir do terceiro ou quarto aparelho na casa. Comece pelo wi-fi se essa é a sua primeira porta.
Três conferências na hora da compra. A primeira é a bateria: os modelos baratos usam pilha de botão CR2032, vendida em qualquer farmácia, e os modelos que usam bateria colada perdem no primeiro ano. A segunda é a rede: quase todo sensor barato só entra na faixa de 2,4 GHz, e roteador anunciando apenas 5 GHz não completa o cadastro. A terceira é o adesivo: o sensor que vem com fita 3M de fábrica gruda melhor que o genérico e não precisa de furadeira em porta alugada.
Uma armadilha de compra que devolve produto: o sensor anunciado como de alarme, sem aplicativo próprio, que só funciona pareado com a central da mesma marca. Ele é barato, aparece nas primeiras posições da busca e não manda aviso nenhum pro seu celular sozinho. Confira se o anúncio cita o aplicativo pelo nome e se ele aceita automação por tempo.
Se o batente e a folha da porta ficam a menos de um centímetro de distância quando ela fecha, o par cola em dois minutos e a compra fecha numa linha só do carrinho. O trabalho de verdade mora no aplicativo, onde a abertura vira aviso.
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II A Rotina do Dia
Dois minutos encostada viram aviso no celular
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Com o par colado e cadastrado, a porta já aparece na tela como aberta ou fechada. A tela sozinha não muda nada: ninguém abre o aplicativo pra conferir uma porta que acredita estar trancada. O aviso precisa sair sem ser pedido.
COMO MONTAR A ROTINA
| 1 | Limpe o batente e a folha da porta com álcool e espere secar. Adesivo colado em superfície com gordura de cozinha solta em duas semanas. |
| 2 | Cole a peça grande na folha da porta e a peça pequena no batente, alinhadas pelas marcas laterais, com folga máxima de um centímetro entre as duas. |
| 3 | Cadastre o sensor na rede de 2,4 GHz com o celular ao lado dele, ainda descolado se preferir, e renomeie na hora pra porta de serviço. Sensor com nome de fábrica vira aparelho anônimo no terceiro mês. |
| 4 | Abra e feche a porta cinco vezes com o aplicativo na tela e confirme que os dois estados aparecem sem atraso. Estado que não muda pede realinhamento das peças, não mais tentativas. |
| 5 | Crie a automação: gatilho de porta aberta, condição de duração maior que dois minutos, ação de enviar notificação pro celular com o texto que você vai ler correndo. |
| 6 | Ative a notificação do aplicativo no sistema do celular e tire o aparelho do modo silencioso pra esse aviso. Automação certa com notificação bloqueada é o defeito mais comum da primeira semana. |
| 7 | Crie o aviso de bateria fraca no mesmo aplicativo e confirme que as duas automações aparecem ativadas na lista. |
Dois minutos é o intervalo que separa a porta em uso da porta esquecida. Descer o lixo, receber a entrega, sacudir o tapete e pegar a roupa do varal cabem confortavelmente em menos de dois minutos. A porta que passa desse tempo aberta quase sempre está aberta por engano, e o aviso chega enquanto você ainda está na cozinha, com a solução a cinco passos.
Abaixo de dois minutos o sensor vira um chato que apita em toda ida ao varal, e o morador desliga a automação na terceira noite. Acima de cinco minutos o aviso perde a serventia: quem já sentou no sofá não levanta.
Oscar Newman defendeu em Defensible Space, de 1972, que a segurança de um espaço depende de ele ser percebido e vigiado pelos próprios moradores, e não da quantidade de barreiras instaladas. O sensor de porta trabalha exatamente nessa linha: ele não tranca nada, ele devolve pra casa a percepção de uma porta que ninguém está olhando. |
Falta o plano B, e ele é obrigatório. A tranca continua sendo a tranca, e a chave continua na porta. Se o roteador cair, se a pilha acabar numa terça ou se o aplicativo atualizar de madrugada, o aviso simplesmente não vem, e a casa volta a ser o que era antes da compra. Nenhuma montagem barata pode substituir a fechadura por uma notificação.
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